12 dias depois…

por Lucas Marcelino em 14 de março de 2014

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12 dias após a premiação do Oscar, ainda estou aqui pensando no filme “12 Years a Slave” (12 Anos de Escravidão).  Will Smith subiu ao palco para anunciar o melhor filme de 2013 e sorriu depois de ler o conteúdo do envelope dourado. Confesso que torci pelo filme de Steve McQueen em todas as categorias que concorreu. McQueen tornou-se o primeiro cineasta negro a dirigir uma produção vencedora do principal prêmio de Hollywood. Além de Melhor Filme, “12 Anos” levou também a estatueta de Melhor Roteiro Adaptado e Melhor Atriz-coadjuvante.

A história é real e baseada na biografia de Solomon Northup, negro livre do norte dos EUA, homem de família, responsável, pai de dois filhos e talentoso violinista. As coisas mudam drasticamente quando ele aceita uma proposta de trabalho temporário em Washington. Os homens que o estavam contratando na verdade eram sequestradores. Depois de o embebedarem, o venderam como escravo. Solomon ficou sem poder provar sua liberdade, sem comunicação com família e amigos e ainda “ganhou” um nome de escravo. Chiwetel Ejiofor é o ator que sofre na pele o que Solomon (ou Platt) viveu em 1841. E sofre mesmo, sofre quase todo o filme e você sofre junto com ele. Você sente agonia ao ver as personagens sofrerem, raiva dos opressores e um misto de angústia e repulsa pela rotina de um escravo.

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O elenco é impecável. Até os papeis mais simples e rápidos são marcantes e caricatos como, por exemplo, o de Paul Dano, Brad Pitt e Adepero Oduye, a mãe que tem seus filhos vendidos. Chiwetel é o cara, contudo, a escrava Patsey, interpretada por Lupita Nyong’o, se destaca todas as cenas, levando, merecidamente, o Oscar de Melhor Atriz-coadjuvante. Patsey é a “preferida” do fazendeiro Edwin Epps (Michael Fassbender, vilão repugnante), despertando ciúmes em sua fria mulher que desconta com violência na pobre escrava. Lupita é protagonista na cena mais forte e emocionante do filme. Assista, chore e dê o Oscar para ela de novo!

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Um parêntese rápido aqui: como que “Gravidade” foi o vencedor da categoria de Melhor Fotografia? O olhar de McQueen e do fotógrafo Sean Bobbitt transformaram o longa em pintura. Enquadramentos, texturas, iluminação (inclusive no escuro), planos abertos dos pântanos, árvores e plantações de algodão de Nova Orleans deixaram o filme belo fotograficamente falando. É quase o mesmo cenário de “Django Unchained”, de Tarantino. As trilhas sonoras e até a sábia decisão de deixar cenas sem música partiram da cabeça de Hans Zimmer.

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Ao final, eu não encontrava palavras. Quase 200 anos depois da escravidão, finalmente surgiu um filme que relata um pouco do que acontecia naquela época. Os diálogos falam bastante de D-s, de redenção e misericórdia ao mesmo tempo em que falam de punição e pecado com severidade. Essa antítese é a reflexão. Fica claro para nós que, um dia,  todos os opressores terão seu castigo por tudo que fizeram.

O filme é lindo e maravilhoso, porém é muito estranho afirmar isso depois de tantas coisas feias e desumanas que assisti. A mensagem é forte e vai direto ao ponto, na ferida, na mancha “negra” da história da humanidade. É revoltante saber que escravidão ainda existe atualmente.

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